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Subtítulo: O que acontece entre as consultas sobre menopausa? David Franklin fala sobre o LUCI e os dados sobre saúde feminina

A saúde de uma mulher não dá uma pausa quando ela sai do consultório médico.

Seus sintomas persistem. Seu sono muda. Seu ciclo menstrual se altera. Sua pressão arterial oscila. Ela pode começar a tomar ou mudar de medicamento, apresentar novos sintomas, perceber padrões em seu humor ou nível de energia e usar dispositivos vestíveis que geram informações sobre seu corpo todos os dias.

No entanto, grande parte dessas informações pode ser esquecida antes da próxima consulta médica.

Essa lacuna entre a vida cotidiana e os cuidados de saúde pontuais está no centro da conversa de Izadora Guimarães com David Franklin, fundador e CEO da Naviday Health. Como especialista em tecnologia que atua na interseção entre saúde feminina e dados, Franklin acredita que a menopausa revela um problema mais amplo na área da saúde: as mulheres geram uma quantidade enorme de informações sobre sua saúde, mas os sistemas criados para cuidar delas nem sempre capturam, organizam ou utilizam essas informações de forma longitudinal.

Sua resposta é o LUCI (Lifestyle Understanding, Care Intelligence), uma plataforma projetada para conectar dados de saúde do mundo real à jornada clínica.

A menopausa é mais do que apenas uma data no calendário

Uma das primeiras ideias que Franklin questiona é a forma como a menopausa é enquadrada.

A menopausa em si tem uma definição clínica precisa, mas a experiência que a envolve é muito mais ampla. Franklin enfatiza a necessidade de distinguir entre perimenopausa, menopausa e pós-menopausa, em vez de tratar toda essa jornada como um único momento definido principalmente pelo fim da fertilidade.

Essa distinção é importante porque os anos que antecedem a menopausa podem envolver uma ampla gama de mudanças. Na entrevista, Franklin destaca que os sintomas podem ser interpretados ou categorizados como outra coisa, especialmente quando não há um quadro clínico claro que os relacione à transição para a menopausa.

O resultado pode ser um ciclo frustrante. Uma mulher passa por algo incomum, busca uma explicação, consulta um médico e recebe um diagnóstico ou tratamento com base nas informações disponíveis naquele momento específico. Em seguida, ela volta para casa e continua vivendo com uma história muito mais ampla, que talvez nunca chegue a constar no prontuário médico.

Para Franklin, isso é, em parte, um problema de infraestrutura.

O sistema de saúde conta com protocolos para muitas doenças crônicas, mas a menopausa, historicamente, tem recebido menos atenção sistemática. Quando os sintomas não são relacionados ao longo do tempo, o quadro clínico pode ficar fragmentado.

E a fragmentação é justamente o que os dados longitudinais de saúde se destinam a resolver.

O problema não é a falta de dados. É a lacuna entre os dados e o atendimento

Franklin descreve um paradoxo impressionante: as mulheres estão constantemente gerando informações sobre saúde, mas o setor de saúde muitas vezes vê apenas instantâneos dessas informações.

Uma consulta médica pode ocorrer três ou quatro vezes por ano. Entre essas consultas, no entanto, a mulher continua a apresentar sintomas e mudanças em sua saúde. Dispositivos vestíveis podem gerar informações sobre atividade física, sono e outros indicadores. As mulheres podem monitorar sintomas, medicamentos, ciclos menstruais e exames. A pressão arterial pode ser medida em casa.

A questão não é simplesmente se essas informações existem.

A questão é o que acontece com isso.

O LUCI foi desenvolvido com base nessa ideia de transformar informações do dia a dia em algo que possa ser útil ao longo de uma jornada de cuidados de saúde. Segundo Franklin, a plataforma reúne o acompanhamento de sintomas, informações sobre medicamentos, avaliações clínicas, acompanhamento do ciclo menstrual e dados de saúde conectados.

O objetivo não é criar mais um lugar onde as mulheres sejam reduzidas a números.

O objetivo é criar uma história mais coerente.

Essa distinção é importante. Dados sem contexto podem se tornar mais um fardo para o paciente. O valor, na visão de Franklin, reside na organização das informações de forma longitudinal, de modo que os padrões se tornem mais fáceis de reconhecer e as conversas com os profissionais de saúde possam ser mais bem fundamentadas.

LUCI e o Prontuário de Saúde do Consumidor

Um dos conceitos mais interessantes abordados na entrevista é o Prontuário de Saúde do Consumidor.

Em vez de deixar as informações de saúde de uma mulher espalhadas por diferentes aplicativos, dispositivos, consultas e pedaços de papel, o LUCI foi projetado para sintetizar essas informações em um prontuário portátil. Franklin descreve um sistema no qual uma mulher pode compartilhar seu histórico de saúde com um profissional de saúde por meio de um código QR.

Essa ideia é particularmente relevante para qualquer pessoa que já tenha precisado repetir a mesma história clínica desde o início.

Imagine chegar a um novo profissional de saúde e poder apresentar um panorama organizado dos seus sintomas, medicamentos, avaliações clínicas e histórico menstrual, em vez de tentar reconstituir meses de experiências a partir da memória.

A tecnologia não elimina o profissional de saúde. Ela altera as informações disponíveis para o profissional de saúde.

Essa é uma distinção importante nessa discussão. Franklin descreve repetidamente o LUCI como uma ponte entre o que acontece na vida cotidiana e o que ocorre no âmbito do atendimento clínico.

A mulher continua sendo o ponto central desse processo.

Do LUCI ao MERCI: uma análise do risco cardiovascular

A conversa toma outro rumo quando Franklin apresenta o MERCI, o Índice de Risco Cardiovascular Precoce na Menopausa.

O conceito surgiu a partir de seu interesse em saber o que ocorre com o risco cardiovascular durante a meia-idade e como essas informações poderiam ser coletadas de forma mais contínua. Franklin argumenta que as consultas clínicas esporádicas podem não revelar o momento em que a trajetória de risco de uma pessoa começa a mudar.

O MERCI é apresentado na entrevista como uma tentativa de utilizar múltiplas fontes de informação, incluindo avaliações clínicas e dados do mundo real, para identificar padrões que possam, eventualmente, contribuir para a prevenção cardiovascular.

É também nesse ponto que a conversa serve para relembrar a diferença entre uma tecnologia promissora e uma ferramenta clínica já consolidada.

Franklin descreve o que a Naviday está desenvolvendo e estudando. Ele fala sobre o potencial dos dados longitudinais para identificar padrões e aprimorar a compreensão. Isso é diferente de dizer que o LUCI ou o MERCI já tenham estabelecido um novo padrão clínico.

Essa distinção é importante, especialmente no campo da saúde da mulher, onde a tecnologia pode gerar entusiasmo muito antes de as evidências terem se consolidado.

A tecnologia não pode funcionar se as mulheres forem deixadas de lado

Outro aspecto importante da conversa é a diversidade.

Franklin ressalta que os dados utilizados para compreender a saúde das mulheres não podem provir de uma única população e, a partir daí, ser considerados representativos de todas as pessoas. Os sintomas podem ser relatados de maneiras diferentes. Os tratamentos podem variar. As práticas diagnósticas podem diferir. A cultura pode influenciar a forma como as mulheres descrevem suas experiências e até mesmo se elas procuram atendimento médico.

Para uma plataforma global dedicada à saúde da mulher, isso representa um grande desafio.

Uma tecnologia desenvolvida em um país não pode simplesmente ser transferida para outro e esperar que funcione exatamente da mesma maneira. Franklin deixa isso bem claro ao falar sobre o Brasil. A tradução, argumenta ele, não é suficiente.

Para que o LUCI atenda de verdade às mulheres brasileiras, diz ele, a experiência precisa estar disponível em português do Brasil e adaptada ao contexto cultural local.

Essa ideia vai além da linguagem.

Trata-se de ir ao encontro das pessoas onde elas estão, em vez de esperar que elas se adaptem à tecnologia.

A quem pertencem os dados?

Talvez um dos aspectos mais importantes dessa conversa seja também um dos menos glamorosos: o consentimento.

A tecnologia da saúde inevitavelmente levanta questões sobre quem tem acesso às informações pessoais, como os dados são utilizados e se as mulheres compreendem o que estão concordando ao usar um aplicativo.

Franklin descreve o consentimento como fundamental para a forma como a Naviday lida com os dados. Na entrevista, ele afirma que, sem o consentimento, as informações permanecem essencialmente restritas. Se uma mulher der seu consentimento, ela poderá escolher se as informações serão disponibilizadas para pesquisa ou se serão compartilhadas com seu médico.

Essa filosofia muda a relação entre a mulher e seus dados.

Em vez de tratar as informações de saúde como algo automaticamente disponível para uma empresa ou instituição, o modelo apresentado por Franklin coloca a mulher na posição de decidir o que acontecerá a seguir.

Isso é especialmente importante na área da saúde da mulher, um campo em que as lacunas na pesquisa histórica deixaram muitas questões sem resposta.

Se uma pesquisa de melhor qualidade exige dados de melhor qualidade, a solução não pode ser simplesmente coletar mais informações.

Isso tem que envolver confiança.

E a confiança exige transparência.

A menopausa não é um assunto exclusivo das mulheres

Franklin também traz uma perspectiva pessoal para a discussão.

Como pai, ele fala sobre como as conversas sobre menstruação se tornaram algo natural em sua própria família e como sua experiência foi bem diferente do silêncio que cercava a menopausa de sua mãe. Ele reconhece, olhando para trás, o quão pouco compreendia o que ela estava passando.

Essa constatação o levou a outro projeto: Homens na Pausa, um podcast criado para ajudar os homens a ouvir, compreender e se tornarem melhores aliados durante a menopausa.

A premissa é agradavelmente simples.

As mulheres lideram. Os homens ouvem.

A menopausa afeta relacionamentos, famílias e ambientes de trabalho, mas os homens muitas vezes ficam de fora dessa conversa. Às vezes, eles são excluídos porque ninguém sabe como abordar o assunto. Outras vezes, porque a menopausa continua sendo associada ao envelhecimento, à intimidade ou a temas considerados muito particulares.

Mudar essa dinâmica não significa transformar os homens em especialistas em menopausa.

Isso significa proporcionar a eles compreensão suficiente para ouvir sem menosprezar, apoiar sem fazer suposições e participar sem monopolizar a conversa.

Uma maneira diferente de encarar a transição

Perto do final da entrevista, Franklin deixa de lado o tema da tecnologia e transmite uma mensagem mais pessoal.

Ele diz às mulheres para criarem um espaço só para elas.

Seu conselho vem de sua própria experiência, quando percebeu que havia se tornado tudo para os outros, mas nada para si mesmo. Para as mulheres que enfrentam as enormes exigências da meia-idade, ele argumenta que estabelecer limites saudáveis e reservar tempo para si mesma não é egoísmo. É uma necessidade.

Há uma conexão notável entre essa mensagem e a tecnologia discutida ao longo da entrevista.

Ambos começam com a atenção.

O LUCI busca dar mais visibilidade à jornada de saúde da mulher, registrando informações que, de outra forma, poderiam se perder entre uma consulta e outra. A mensagem pessoal de Franklin convida as mulheres a se tornarem visíveis em suas próprias vidas, criando espaço para perceberem o que precisam.

A tecnologia tem tudo a ver com dados.

A discussão mais profunda diz respeito à atenção.

E se o setor de saúde pudesse ter uma visão mais abrangente da situação?

A questão mais interessante levantada por essa conversa não é se a tecnologia substituirá os médicos.

A questão é se a tecnologia pode ajudar os médicos a enxergar melhor a mulher que está sentada à sua frente.

A menopausa torna essa questão particularmente relevante, pois a transição se desenrola ao longo do tempo, os sintomas podem ser variados e a experiência vai muito além do momento em que a menstruação cessa.

O trabalho de David Franklin com a Naviday Health e a LUCI se baseia na ideia de que o sistema de saúde não deveria ter que reconstruir a história de uma mulher a partir de algumas consultas isoladas.

A história da saúde dela se repete todos os dias.

O desafio é aprender a ouvi-la.

E talvez essa seja uma das mudanças mais importantes que estão ocorrendo na área da saúde da mulher: passar de pedir às mulheres que se lembrem de tudo o que aconteceu entre as consultas para criar sistemas que ajudem a tornar essa jornada visível.

Mais dados não significam, automaticamente, melhores cuidados de saúde.

Mas informações mais bem articuladas, consentimento significativo, compreensão cultural e a presença de uma mulher no centro da conversa poderiam ajudar a criar uma experiência de atendimento bem diferente.

Essa é a possibilidade explorada nesta conversa entre o Brasil e os Estados Unidos.

E essa é uma conversa que está apenas começando.

Assista à entrevista completa

Assista à conversa completa entre David Franklin e Izadora Guimarães em Menopausa: Muito Prazer.

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Menopausa: Prazer em conhecê-la faz parte do Multiverso das Mulheres com Mais de 40 Anos, reunindo conversas sobre saúde, menopausa, longevidade, comportamento, cultura, estilo de vida e as diversas facetas da vida após os 40 anos.

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